Releituras: Chapeuzinho Vermelho


CHAPEUZINHO AMARELO
Chapeuzinho Amarelo é considerado um clássico da literatura infantil brasileira. Escrito por Chico Buarque, foi editado pela primeira vez em 1979 e relançado em 1997 com ilustrações de Ziraldo.
            Essa Chapeuzinho, ao contrário da menina do conto dos irmãos Grimm, tinha muito medo. Um medo terrível que a paralisava: não ia a festas, não brincava, não sorria, tinha medo do sol, da chuva. Tinha medo da própria sombra! Até que...

CHAPEUZINHO AMARELO
Ilustrações: Ziraldo

Era a Chapeuzinho Amarelo
Amarelada de medo
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria
Em festa, não aparecia
Não subia escada, nem descia
Não estava resfriada, mas tossia
Ouvia conto de fada, e estremecia
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha
Tinha medo de trovão
Minhoca, pra ela, era cobra

E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra
Não ia pra fora pra não se sujar
Não tomava sopa pra não ensopar
Não tomava banho pra não descolar
Não falava nada pra não engasgar
Não ficava em pé com medo de cair
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo
Era a Chapeuzinho Amarelo…
E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,

num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO

nem existia.
Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO
Um LOBO que não existia.
E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele

que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.
O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.
Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.

E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:

LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO
Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
“Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!”
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO. Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.

Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.
FIM
( Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru,
o Barãotu, o Pão Bichôpa…
e todos os trosmons).



Fita Verde no Cabelo

O conto Fita Verde no Cabelo (Nova Velha História), de João Guimarães Rosa foi publicado pela primeira vez no jornal O Estado de São Paulo no dia 8 de fevereiro de 1964.



Fita Verde no Cabelo (Nova Velha História)
Autor: Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.
Então, ela, mesma, era quem se dizia:
– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.
Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.


A peleja de chapeuzinho vermelho com o lobo mau
Ilustrações: Jô Oliveira

Não foi em uma floresta
Indo à casa da vovó
Nem foi em festa nenhuma
Em nenhum forrobodó
Que chapeuzinho encontrou
De repente o lobo só

Depois de andar de carruagem
De bicicleta e marinete
Chapeuzinho levou bombom
E também levou chiclete
Mas encontrou o lobo mau
Que digitava legal
Acessando a internet

Ele a adicionou
Na maior cara de pau
Descobriu o seu e-mail
E achou isso genial
Mandou logo uma mensagem
Dizendo: veja a imagem
Do seu amigo Lobo Mau

Chapeuzinho descontrolada
Diante do computador
Ficou logo revoltada
Achando aquilo um horror
Disse logo: seu mané
Agora o que você quer?
Comer também meu avô?

O lobo desconfiado
Querendo também disfarçar
Disse: - Está enganada
Quem está acessar
É seu amigo caçador
Aquele que te salvou
Querendo apenas brincar

- Lobo mau cabra safado
Não me venha com besteira
Saiba que sou criança
Mas não tô de brincadeira
Você não vai me enganar
Nunca vou acreditar
Em sua grande bobeira

_ Dessa vez não tem toquinha
Óculos e cachecó
Para ficar parecido
Com minha linda vovó
Você é bobo e tantam
Não viu nem a Web – cam
Com sua cara de bocó

- Menina o que é isso?
Você não era assim
Me perdoe bela menina
Tenha piedade de mim
Esqueça este passado
Sou agora transformado
Vamos chegar logo ao fim?

- Como posso te ajudar?
Sem a minha vovozinha
Que você já engoliu
Me deixando tão sozinha
A minha mamãe chorando
E você aí gozando
Vivendo a sua vidinha


- Eu pensava que você
Era menina esperta
E já tinha visitado
A dona biblioteca
E lido outra versão
Desta grande confusão
E soubesse a história certa

- Na verdade sua avó
Nunca esteve engolida
E continua na floresta
Vivendo a sua vida
Você veio à capital
Em busca do lobo mau
Deixando sua vó querida

Agora vive isonada
Querendo virar manchete
Passando o dia todo
Acessando a internet
Sempre na cyber café
Ou numa lan house qualquer
Rindo e mascando chiclete

- Sua avó sente saudade
De sua neta querida
Dos passeios e dos doces
E lamenta sua vida
Conversa com os passarinhos
E lá todos os bichinhos
Que a chamam de amiga

- Obrigado lobo mau
Disse chapeuzinho vermelho
Estou com tanta vergonha
Nem vou olhar no espelho
Quero encontrar você
Para lhe agradecer
Pedir perdão de joelho.

E eu não sei como isso foi isso
Eu só sei que foi assim
Não me chame de maluca
E nem duvide de mim
Esta peleja retada
Totalmente digitada
Já está chegando ao fim

Se você quer saber mais
Desta história genial
Mande a sua mensagem
Pergunte ao lobo mau
floresta@lobobom
hotmail ponto com
E descubra outro final

ponto com ponto bê erre
medo@chapeuzinho
Para quem não achou graça
Na conversa do lobinho
Mande a sua mensagem
E farás outra viagem
Lendo outro finalzinho




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